sábado, 25 de setembro de 2010

' A chegada ,

« Ontem, fui a casa. Há alguns anos que a minha casa é o mundo e é-me estranho chamar casa a um espaço limitado por quatro paredes e um tecto. Abri a porta com a mesma curiosidade com que uma criança abre um presente de Natal, com a simples diferença de que não quero escavacar a porta como a criança faz com o embrulho. Abri, sim, a porta com o carinho de uma nostalgia pelo passado, das recordações daquele tempo que se atenuam em quantidade pelos anos mas em que as que se preservam parecem ficar cada vez mais nítidas.
Limpei os pés num tapete velho antes de entrar para as divisões interiores, inspirei fundo o cheiro a mofo entranhado nas paredes e que intoxicava o ar. Já era de noite, pelo que me sentei no sofá velho da sala a tentar descortinar as estrelas que se escondiam no nevoeiro. Lembro-me de todas as vezes em que ignorei as obrigações de estudante por sentir que aquele mesmo olhar que estava a ter poderia de súbito ensinar-me algo muito mais grandioso.

Se houve alguma lição a reter, foi ter aprendido a descobrir-me.
Adormeci no sofá, no quentinho de duas mantas com que a mamã me costumava cobrir.
Hoje penso no significado do dia de ontem: será que faço aquilo com que sempre sonhei fazer quando olhava as estrelas? Nunca fui muito exigente comigo, deixei-me sempre levar pelas oportunidades que a vida me deu. Nem sei que pensar objectivamente sobre as emoções que me invadiram no noite de ontem.
A Ana ligou-me há pouco:
- Que estás a sentir por regressar a casa?
- Está frio! »

   

 



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